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Imagem: Boutique de Achados |
Vocês já devem estar cansados de saber que eu defendo que a nossa casa tem que ter nossas referências, objetos que contem alguma história. Coisas que indiquem um pouco do que nós somos. Deixei isso claro com os mimos parte 1 e 2.Mas esse objeto que mostro para vocês hoje vai muito além de um pequeno mimo com uma historinha fofa. Está mais para uma governanta, daquelas bem rígidas. Como pode um quadrinho de telefone ser rígido? Senta aí que vou te contar um pouquinho da minha história.
Eu tive meningite com 1 ano e 8 meses. Não perdi a vida, mas perdi a audição. Dos males, o menor, graças a Deus. Mas eu tive a sorte de ter tido os pais que tive. Eles não sossegaram enquanto eu não me oralizasse. Estudei em colégio regular e cursei a universidade usando apenas a leitura labial. Sempre tive facilidade para me comunicar sem o apoio auditivo, mas isso não quer dizer que eu recusaria o vento se a vida resolvesse soprar a meu favor.
E não é que um sopro lindo bateu à minha porta quando eu tinha 20 anos? Consegui fazer o implante coclear. Se você nunca ouviu falar, mas se interessou pelo assunto, no Wikipédia tem um resumo, clique aqui.
Com o implante, a minha audição, quando estou com o aparelho externo ligado, fica bem próxima a de um ouvinte. Só que eu a perdi ainda bem pequena e fiquei quase 18 anos no silêncio. Consequentemente, não desenvolvi a memória auditiva. Eu tive e ainda tenho que aprender a ouvir. A grosso modo, é como aprender um idioma novo, daqueles bem difíceis, tipo árabe ou mandarim. Na época que passei por uma avaliação multidisciplinar, antes de passar pela cirurgia, as fonoaudiólogas e as psicólogas me dizeram que dificilmente eu falaria no telefone, mas que isso não queria dizer que eu não poderia tentar.
Ao longo desse tempo, eu já tentei várias vezes, poucas delas com sucesso. Mas eu não me importo. Cada vez que eu consigo é uma vitória indescritível! Em meados de 2010, gostava muito de falar com dois amigos, mas depois eles saíram do Rio de Janeiro e esse tipo de comunicação ficou bem dificultada.
Desde que eu saí de casa para morar sozinha, a necessidade de treinar mais, me esforçar mais, começou a falar bem alto dentro de mim. Determinei que sempre que desse, ao invés de mandar torpedo para minha mãe, eu deveria ligar. Se desse certo, ótimo. Se não funcionasse, aí sim, recorreria ao torpedo. Fracassei várias vezes. Mas também já saí saltitando pela casa por ter conseguido manter uma conversa por 5 minutos, o que é muito para mim. Ultimamente, tenho arriscado falar com alguns amigos. Falar no telefone me exige um esforço sobrenatural, tenho que estar muito concentrada, num ambiente silencioso; então é natural que às vezes eu queira recorrer ao torpedo de primeira. Se eu estiver cansada, então...
Onde entra o quadrinho?
Tem um blog fofíssimo, cheio de ambientes inspiradores, o Achados de Decoração, da Carmen Martins, conhece? Através desse blog, conheci a loja virtual da Carmen, a Boutique de Achados. Tem muita coisa fofa lá, que dá vontade de apertar a bochecha dos objetos - se eles a tivessem. Um dia, passeando pela loja, dei de cara com esse quadrinho de telefone antiguinho. Gente, eu AMEI! Era como se ele dizesse para mim:
- Você tem que ligar mais vezes. Você tem que treinar! Abandone essa preguiça. Já para o telefone!
Além de me dar um alerta cada vez que olho para ele, ainda tem esse ar retrô! Muito a minha cara, não?
Esse post não é um publieditorial. Apenas quis mostrar para vocês um objeto novo que conta uma parte marcante da minha história e do meu dia a dia.